Aventura antropológica na garupa de um riquixá

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Por enquanto a rua é larga, e o apito ardente da buzina não cessa. Da “garupa” do riquixá, vejo o motorista jovem e franzino levantar, fazer uma força quase sobrenatural e pedalar. Levanta e pedala e tira fino dos carros, das motos, das biciletas. Da vaca. Não, a mãe vaca é sagrada! Para, dá a preferência.

Nem pense em fechar os olhos, leitor, isso é melhor que montanha-russa. Os tuc-tucs passam a milhão e buzinam. Buzinam para as charretes, as pessoas carregando mercadorias na cabeça. Para fazer graça. Pedestres atravessam e nem olham. O franzino, coitado, levanta, joga tudo para a direita, desvia. E tudo isso na mão inglesa.

Por Lord Ganesha, entendo agora por que os guias insistem em dizer que para dirigir na Índia é preciso bons freios, boa buzina e boa sorte. Eu acrescentaria jogo de cintura, literalmente. Tudo anda junto – e misturado – nessa confusão. Semáforos? Para quê? Se estão lá, são meros figurantes. Acho que nada mais pode acontecer, mas a aventura antropológica só está começando. E buzina.

O franzino vira bruscamente à esquerda e entra nos becos de Chandni Chowk, no coração de Old Delhi. Aqui carros não passam, mas a emoção até aumenta. As ruas são extremamente minúsculas e congestionadas, como se os 17 milhões de habitantes da capital estivessem todos ali. Nas casas, nos barracos, nas lojas, sob o novelo incorrigível de fios elétricos. O riquixá segue firme, em frente, entre saris, bananas e moscas. Uma profusão de cores. E cheiros, do incenso ao escapamento.

As vielas de Chandni Chowk formam um imenso bazar. Conforme o franzino pedala, vitrines lotadas de pashminas, tapetes, turbantes e ouro, muito ouro, passam como borrões. Hindus e muçulmanos acenam, sentados à porta das lojas, comendo salmossa e bebendo tchai. E pedala, e buzina. Dá vontade de pular do riquixá e começar logo a pechincha. Mas se você esticar o braço sem muito esforço, é verdade, consegue agarrar aquele lenço de seda em troca das pouquíssimas rúpias jogadas ao vendedor que te (per) segue correndo.

Aos poucos, o riquixá vai se desvencilhando desse nó. As cores, os cheiros, o barulho, tudo – até a buzina – perde força. Um último suspiro diante da Mesquita Jama Masjid e desço inacreditavelmente ilesa. Há um certo controle no caos.

Mais uma volta
Já que o passeio termina diante da maior mesquita da Índia, tire os sapatos e cubra ombros e pernas para conhecê-la. Quando chegar ao último degrau da escadaria, o espanto será inevitável. Um grande pátio com pilares e arcos rodeia os três domos de mármore e os dois minaretes da Jama Masjid.

Fiéis lavam os pés na dukka antes dos rituais. Outros deitam pelos corredores esperando por esmolas de turistas. A revoada de pombas faz barulho. Depois de dar uma volta – e fotografar ininterruptamente –, tudo o que dá para fazer é subir no minarete. Dali, sim, uma vista incrível dos becos de Old Delhi. E da confusão em que você se meteu de riquixá.

O motorista franzino, aliás, está à espera, lá embaixo. Por mais gorjeta, ou mais uma volta. Siga com ele, com fôlego, para New Delhi. Mas combine o preço antes: 100 rúpias é um valor médio para qualquer canto da cidade.  

Pelo caminho, mesquitas, monumentos, fortalezas e mais mil outros riquixás. Alguns passam lotados de crianças amontoadas e uniformizadas. Além de perua escolar, o veículo também funciona como casa. A maioria dos motoristas aluga as bicicletas e suas carrocerias para trabalhar e dormir – Delhi tem o metro quadrado mais caro do país.

A voltinha em New Delhi é outra experiência. Uma Índia como nunca se imagina. Avenidas largas e arborizadas, hotéis de luxo, mansões inglesas da década 1930. Tem até um Arco do Triunfo (Porta da Índia), que fica iluminado à noite. Mas nada com tanta graça.

Sobre Camila Anauate

De alma inquieta e mente aberta, que me fizeram jornalista, viajante, aventureira, sonhadora sem-fim
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Uma resposta para Aventura antropológica na garupa de um riquixá

  1. Filipe disse:

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