Quatro horas de trilha entre paredões

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O movimento no Yaki Point começa antes das 8 horas. O vento é gelado, a névoa ainda esconde as cores do Grand Canyon. Pouco a pouco chegam jovens falantes, famílias completas e senhoras com preparo físico aparentemente incompatível com a aventura que terão pela frente. A South Kaibab Trail não é fácil.

A guia do parque vem em seguida. Ela vai acompanhar o grupo cânion abaixo. Começa dizendo que 4,5 milhões de pessoas visitam o santuário todos os anos, mas só 5% se arriscam a encarar o trekking. Ou seja, experiência para poucos. Isso faz você se sentir vitorioso antes mesmo do início da caminhada.

Todos olham o cânion de cima pela última vez, respiram fundo e se preparam para o desafio. O sol ameaça furar o bloqueio das nuvens.

O grupo desce o penhasco em zigue-zague. Poucos passos são suficientes para mudar completamente o panorama: estamos agora dentro do Grand Canyon. Quanto mais avançamos pela enorme cratera, mais a paisagem se espalha diante de nossos olhos.

Dá para sentir o cheiro da terra, tocar nas pedras, ver detalhes das formações geológicas, das plantas, das flores. “Tudo isso já foi oceano”, explica a guia. O choque de placas tectônicas fez erguer o cânion e, por capricho, manteve os platôs todos no mesmo nível. O Rio Colorado ajudou a esculpir as rochas e a formar esse cenário de cartão-postal.

A diversidade de ecossistemas tem a ver com a altitude, o clima, a presença de água. O parque é o refúgio de raras espécies animais e vegetais. “São 1.500 tipos de plantas, 355 de pássaros, 89 de mamíferos, 47 de répteis, 17 de peixes…”

Nesse ponto você já não ouve tudo. Estamos sobre um mirante natural, diante de um cânion com cores vivas. Faz calor, muito. Um gole de água para refrescar e renovar o fôlego. O visual muda com o vaivém do sol.

O grupo já perdeu o ritmo e cada um desce como pode. Dá para percorrer a South Kaibab sozinho, como qualquer outra trilha do parque. Mas ter uma guia por perto representa segurança e algumas informações adicionais pelo caminho.

UM PASSO ALÉM
Quase duas horas depois – e 2,5 quilômetros de caminhada -, alcançamos o Cedar Ridge, parada obrigatória para quem precisa se refazer do esforço. A guia se despede aqui, o resto é por sua conta. Você pode descer mais 2,5 quilômetros até o Skeleton Point, de onde se vê, pela primeira vez, o Rio Colorado. Mas e a volta?

Na dúvida, passe mais tempo por ali. Aproveite para deitar na borda do desfiladeiro. Com a câmera nas mãos, claro. Em qualquer direção há uma foto indispensável, ainda mais se o sol estiver brincando de se esconder nas nuvens. Condores californianos empurram o ar, produzindo um som grave. No mais, só os passos e a respiração ofegante dos outros aventureiros.

Mas a terra exerce uma força inexplicável. Você quer ir além. Avança mais alguns metros, para em outro mirante, cruza com pessoas ímpares. Como os dois homens que tentam ensinar meditação aos turistas. “Deite de barriga para cima, coloque a palma das mãos no chão, sinta a vibração da terra”, dizem. Faça uma tentativa. Ou não.

A vontade de ver um fiapo que seja do Rio Colorado não vence o cansaço. Com o sol a pino, muitos preferem voltar. A subida é cruel: 350 metros. É melhor ir parando vez ou outra. Ao olhar para trás, a certeza de que cada passo valeu a pena.

Sobre Camila Anauate

De alma inquieta e mente aberta, que me fizeram jornalista, viajante, aventureira, sonhadora sem-fim
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