Mundo particular

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O barbudo tocava flauta e olhava feio. E eu só queria uma foto da serpente dançando. De longe, bem longe. A mulher de lenço puxava de supetão braços e mãos alheios para tatuar com henna. O homem do macaco amestrado tentava jogá-lo em ombros desavisados. Por um clique – e um troco. O da barraca de laranja, desesperado, acenava e o das castanhas até arremessava algumas, pedindo atenção.

Parada bem no meio da Praça Djemaa el Fna, sem saber o que ver, ouvir ou fazer, tive certeza de que havia entrado em outro mundo. O mundo particular de Marrakesh. Naquele quadrado barulhento todos devem estar e, de fato, estão: moradores, turistas e caçadores de turistas, prontos para comer, comprar, vender, rir, rezar.

E aquela seria apenas a primeira escala da viagem. O que poderiam reservar as outras facetas do Marrocos? Com 3 mil anos de história, o país combina herança africana, arquitetura moura e influências europeias. As paisagens se revelam em cidades imperiais, praias, montanhas, deserto, ah, o deserto…

Mas ainda estou na praça, cujo nome significa “lugar do morto” – em outros tempos, ali eram exibidas as cabeças dos inimigos – e que de morto, hoje, não tem nada. Melhor é seguir andando no ritmo do caos. Flauta, apito, gritos. Chamado do muezim para a próxima oração na mesquita.

Quando se decide ir por um lado, o barbudo da cara feia vem de outro querendo cobrar a foto da cobra. Basta desconversar e continuar em frente. Da mulher da tatuagem de henna e do macaco amestrado também é fácil se livrar. Mas das barracas de laranja e frutos secos, impossível. A boca enche de água diante de damascos, amêndoas e castanhas.

Nem pense em resistir, mesmo porque é preciso energia para encarar a maratona dos zocos, os mercados. A partir da praça saem dezenas de vielas que vão se entrelaçando entre lojinhas, barracas, mulas e multidões.

Antes de comprar, saiba que a pechincha é uma tradição levada a sério. Converse, insista e depois finja pouco interesse pelo produto. O preço final será, no mínimo, metade do oferecido pelo vendedor. Mesmo os sem vocação para angariar descontos vão enlouquecer – e se divertir – com o jogo. Os marroquinos adoram o Brasil, sabem tudo de futebol e enrolam qualquer língua. Basta puxar papo.

Um lenço aqui, uma almofada lá, um brinco de prata acolá. Bolsa de couro, chaveiros, caixinha de madeira. Babuches! A essa altura não existe qualquer noção de tempo, espaço e valor.

Custa encontrar o fim do labirinto e reconhecer a Djemaa el Fna. Já é noite e a praça parece outra. Tem barracas de comidas típicas, mesas e bancos espalhados para todos os lados. Cor, cheiro, gosto. O muezim chama mais uma oração. Apito, gritos.

O barbudo não está mais lá, nem as tatuadoras de henna, tampouco o homem do macaco amestrado. Agora são grupos musicais perdidos na multidão. Gente, muita gente, fumaça. Impossível não sair satisfeito deste mundo. E ansioso para as novas descobertas.

Sobre Camila Anauate

De alma inquieta e mente aberta, que me fizeram jornalista, viajante, aventureira, sonhadora sem-fim
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3 respostas para Mundo particular

  1. Adriana Anauate disse:

    Demais ! ;o)

  2. Sonia Tuma disse:

    Deus te abençoe em todos os seus caminhos…..
    Através de suas letras eu me sinto viandante….
    Sonia Tuma

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