Histórias de paixão e desvario nos castelos da Baviera

Era uma vez um rei excêntrico. Tão excêntrico que resolveu criar para si um conto de fadas. Fez da política a arte de construir imponentes castelos medievais, dissipando a fortuna do reino até enfrentar a bancarrota – capricho pouco conveniente no século 19. Mas Ludwig II vivia alheio a críticas e a problemas. Queria apenas pairar no luxuoso mundo que criou entre as montanhas da Baviera.

Nascido na Alemanha, em 1845, Ludwig tinha alma absolutista e admirava o francês Luís XIV a ponto de fazer duas cópias do Castelo de Versailles. Chegou ao trono aos 18 anos, para dar continuidade à dinastia dos Wittlesbachs, que comandava a Baviera havia 738 anos. Mas logo perdeu poder para a Prússia, um fato que seu ego nunca registrou.

Como alguém que não sabia lidar com pessoas poderia governar? Ludwig era assim. Preferia a solidão embalada por óperas de Richard Wagner (1813-1883). Era apaixonado pela música do compositor – dizem que pelo autor também, mas isso ninguém ousa falar abertamente. O fato é que ele rompeu com Sophie, a irmã da imperatriz Sissi, da Áustria. E nunca se casou.

As estradas da Baviera, contornadas por picos nevados e lagos transparentes, levam aos cenários que o rei escolheu para curtir a infância, passar o verão e desfrutar do poder. A rota de Ludwig começa em Munique, a capital do reino, e vai até Füssen, a cidade romântica onde ele ergueu o castelo de seus sonhos, Neuschwanstein, hoje sonho de todo turista.

Síntese do desvario de Ludwig, Neuschwanstein fica isolado nos Alpes e guarda uma vista inacreditável do lago e das casinhas da vila Schwangau. É tão escuro e depressivo quanto o rei. É também exagerado, denso e romântico, tal qual uma ópera de Wagner. Referências ao compositor são recorrentes em quartos e salas do castelo construído entre 1869 e 1884.

Esse monumento à cultura medieval mistura arquitetura gótica, romântica e bizantina. Impressiona de tal forma que fica difícil acreditar que está incompleto até hoje – a torre de 90 metros e a igreja gótica previstas no projeto original não saíram do papel. E o motivo foi a falta de verbas: em 1881, a construção havia consumido seis vezes mais recursos do que a estimativa inicial.

Volta ao tempo
Faz parte do ritual subir a pé a trilha que leva à entrada de Neuschwanstein. O castelo surge aos poucos. Uma torre aqui,

um detalhe acolá, outro ângulo interessante mais à frente. Ver o prédio inteiro só é possível a partir de uma ponte de aço – igualmente obra de Ludwig -, construída para que Neuschwanstein pudesse ser apreciado como merece.

Um pesado e gigantesco portão de madeira separa o visitante de histórias apaixonantes, distribuídas em cinco andares. A visita com direito a áudio em português começa no primeiro piso, destinado aos empregados. Ludwig queria serviçais 24 horas à disposição de seus caprichos (tinha uma campainha elétrica para chamar os empregados) e eles precisavam se revezar nessa tarefa.

Uma escada em espiral leva à rica sala do trono, em tons de azul e dourado,  iluminada com um lustre onde brilham pedras preciosas. No teto, imagens bíblicas. O trono ficaria numa espécie de altar, elevado por degraus de mármore branco. Ficaria. Ludwig não teve dinheiro para comprar a peça e morreu sem usar a sala.

O terceiro andar é o que melhor representa o lado sombrio do rei. No quarto, pequenas torres de madeira fazem a cama real parecer uma igreja gótica. As paredes, por sua vez, são adornadas com cenas de Tristão e Isolda – Ludwig se identificava com a triste história contada por Wagner na ópera.

Mas o maior recinto de Neuschwanstein fica no andar de cima. A sala dos cantores, com palco e inúmeras cadeiras, foi construída para receber concertos (particulares, claro, porque Ludwig não gostava de visitas). Na decoração,  desenhos do cavaleiro medieval Percival, que inspirou Wagner na obra homônima.

O tour termina no térreo, onde está a cozinha, moderna para a época. Ali ficava o sistema de aquecimento central, que abastecia de água quente os toaletes do castelo.

Insanidade
O rei curtiu pouco seu palácio. Ali ele foi preso, em junho de 1886, e levado para Castle Berg, perto de Neuschwanstein. A acusação? Loucura, atestada por um psiquiatra contratado pela família real para impedir que Ludwig continuasse gastando até a falência total.

Dois dias depois de ser detido, o rei foi encontrado morto no Lago Starnberg, aos 41 anos. Do lado dele, o tal médico que dera o laudo de insanidade mental. Oficialmente, o caso figura como suicídio. Mas a população crê em assassinato – mesmo porque dois pescadores juraram ter visto marcas de tiros nas costas do rei. O mistério só faz alimentar a lenda.

Sete semanas depois da morte de Ludwig, Neuschwanstein foi aberto ao público. O palácio construído para ser o refúgio do rei hoje recebe 1,3 milhão de visitantes por ano. E tem até réplica: o castelo da Cinderela, no Magic Kingdom, em Orlando.

Neuschwanstein: www.neuschwanstein.com

Sobre Camila Anauate

De alma inquieta e mente aberta, que me fizeram jornalista, viajante, aventureira, sonhadora sem-fim
Esse post foi publicado em Alemanha e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s