Inesgotável Atacama

Diante da imensidão árida do Atacama, modificada a cada segundo pela natureza, o homem perde o prumo, o rumo e o poder. O deserto hipnotiza e surpreende – sem o mínimo esforço, a vista alcança paisagens alucinantes a até 400 quilômetros de distância. Atiça, sobretudo, as almas aventureiras.

Antes de se deixar levar, apague a visão mítica de deserto. Sim, o Atacama é seco, o mais seco do mundo. Mas tem vida e um cenário que vai além de imensas dunas. Até parece miragem: cordilheiras com picos nevados dividem as atenções com vulcões adormecidos, lagoas salgadas, estranhas formações rochosas, gêiseres em atividade e salares branquinhos. Aqui e ali, a vegetação rasteira alimenta lhamas, vicunhas e alpacas. No céu azul-turquesa, flamingos voam com graça.

O céu é assim 300 dias por ano. Se não tem uma só nuvem durante o dia, à noite fica completamente tomado por estrelas, planetas e nebulosas visíveis a olho nu. A altitude e o clima seco – chuva no deserto, se cair, só entre janeiro e fevereiro – fazem do Atacama um destino único para a astronomia. Tanto que Estados Unidos, Europa e Japão construíram ali as antenas do Projeto Alma (Atacama Large Millimeter/Submillimeter Array), um observatório astronômico, a 5 mil metros acima do nível do mar.

Uma vez no Atacama, porém, você não precisa ir longe para descobrir um novo mundo. A viagem pelas sinuosas curvas do deserto é reveladora. Segui-la, no entanto, requer espírito aventureiro. São quatro horas de voo de São Paulo a Santiago, a capital chilena, e mais duas horas até Calama, a maior cidade do deserto.

Calama pode ser uma das bases para os passeios, mas a maioria dos turistas prefere o povoado de San Pedro de Atacama, onde estão albergues e hotéis de luxo (sim, há luxo no deserto). Isso significa mais uma hora de carro.

Já é noite e o turista chega cansado a Calama, mas não tem coragem de pregar o olho durante o percurso até San Pedro. A lua parece se refletir em cada pedaço de paisagem.

Uma semana é o período recomendado para conhecer o mínimo do Atacama. ”E três meses, o ideal para fazer o básico”, exagera o guia Luis Aracena, dono da empresa Hoiricaur, com 25 anos de experiência no deserto

Quem estiver hospedado nos hotéis cinco-estrelas, como o Tierra Atacama, o Awasi e o Explora, terá as excursões incluídas no pacote. Caso contrário, inúmeras agências de turismo de San Pedro vendem os roteiros.

O calendário de passeios é organizado de acordo com a altitude. Aqueles que levam aos picos do deserto, como aos famosos gêiseres El Tatio (a 4.320 metros acima do nível do mar), devem ser feitos no último dia – o corpo precisa de um tempo para se adaptar.

O clima também mostra seu efeito sobre os turistas. Os olhos secam, o nariz pode sangrar e a garganta fecha. Os raios solares incidem com violência, mas, quando desaparecem, provocam uma queda absurda de temperatura.

Quando o primeiro raio de sol brilhar, a imagem mais impressionante será a do cone perfeito do onipresente Licancábur. A 5.970 metros de altura, o vulcão acompanhará a viagem.

O aventureiro descobrirá pelo caminho outras imagens marcantes, cenários diferentes de tudo o que já viu. E pequenos povoados habitados por gente humilde e solitária, que carrega como herança a colorida cultura andina. A jornada pelo deserto também provoca reflexões sobre os mistérios da vida. Mas não tente procurar explicações. Apenas viva.

Sobre Camila Anauate

De alma inquieta e mente aberta, que me fizeram jornalista, viajante, aventureira, sonhadora sem-fim
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